Condições climáticas e manejo adequado contribuem para safra histórica de milho
O resultado só não é melhor por falta de armazenagem, “o que leva à venda [do produto] antes mesmo de se alcançar o melhor preço”, avalia Anderson Galvão, diretor da consultoria Céleres.
Melhora dos índices de produtividade, condições climáticas favoráveis durante o ciclo na maioria das regiões produtoras e manejo adequado levam o Brasil a projetar uma safra histórica de milho em 2024/2025. Relatório da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) revela estimativa total de 128,3 milhões de toneladas do cereal, o que representa um crescimento de 11% em relação ao ciclo passado. A segunda safra (safrinha), que responde por cerca de 80% da produção total, deve alcançar cerca de 101 milhões de toneladas. As estimativas da consultoria Datagro Grãos são ainda melhores: 108,5 milhões de toneladas na segunda safra. No Mato Grosso, maior produtor do grão, a produtividade média do milho safrinha foi estimada em 131,9 sacas por hectare, 12% maior que a da última safra.
Os resultados positivos, que colocam o Brasil entre os maiores produtores globais de milho, são decorrentes do aumento da área destinada à segunda safra — que subiu de 16,4 milhões para 16,6 milhões de hectares — e do avanço da produtividade média por hectare. São 5.986 kg/ha ante os 5.957 kg/ha do ciclo anterior, maior rendimento obtido para lavouras de inverno no país e 7% acima do registrado em 2023/2024, segundo a Datagro Grãos.
“A produção nacional cresceu significativamente, sobretudo na segunda safra, e o desafio é dar vazão e liquidez”, diz Anderson Galvão, diretor da consultoria Céleres. “Falta espaço para armazenagem, o que leva à venda antes mesmo de se alcançar o melhor preço.” Segundo ele, a exportação responde pela maior fatia da produção (mais de 34 milhões de toneladas), seguida pela avicultura (33 milhões de toneladas) e indústria do etanol de milho (27,2 milhões de toneladas). “Embora o maior importador do milho brasileiro seja a China, há um sinal de alerta com relação às taxações do mercado americano e dos conflitos na região do Irã”, observa Galvão.
A tendência é que a fatia absorvida pela indústria do etanol de milho aumente nos próximos anos. A previsão da União da Indústria de Cana-de-Açúcar e Bioenergia (Unica) é de 10 bilhões de litros de etanol de milho produzidos no país neste ano, mais de um quarto do total nacional. “O avanço acelerado do etanol de milho é impulsionado pela grande oferta do grão a preço competitivo, associada a uma tecnologia industrial bem estabelecida”, diz Alexandre Muller, professor de agrometeorologia da Pontifícia Universidades Católicas do Paraná (PUC-PR).
Primeira empresa de produção agrícola a abrir capital na B3, a BrasilAgro negocia quase 100% do milho de segunda safra produzido nas fazendas de Mato Grosso e do Maranhão com a indústria de etanol. “Trabalhamos com um volume grande de dados que nos permite negociar bem e ter os custos azeitados”, diz Wender Vinhadelli, diretor de operações. A empresa produziu 120,7 mil toneladas de milho em 2024/2025, 40% mais que na safra anterior.
O crescimento da indústria de etanol à base de milho ajudou a mitigar um dos principais problemas dos produtores: a armazenagem dos grãos. Segundo dados da Cogo Inteligência em Agronegócio, o déficit de estocagem é de 129,9 milhões de toneladas. A capacidade instalada dá conta apenas de 70% da produção de grãos. “A velocidade de crescimento da safra é maior do que o desenvolvimento da infraestrutura”, diz Jean de Oliveira, diretor comercial da Kepler Weber.
Segundo Oliveira, enquanto nos Estados Unidos 65% dos grãos são armazenados nas fazendas, no Brasil essa parcela é de 16,8%. “Com isso a armazenagem é distribuída em armazéns no meio do caminho, entre a fazenda e o porto”, afirma. “O que torna ainda mais desafiador equacionar o tempo de estocagem e a comercialização do milho na melhor condição.” A fim de atuar com mais assertividade, a Kepler Weber adquiriu a Procer, empresa de agrointeligência. “Hoje monitoramos em tempo real cada silo de estocagem, o que ajuda o produtor a garantir maior qualidade e rentabilidade”, diz Oliveira.
Décio Karam, pesquisador da Embrapa Milho e Sorgo, assegura que cada vez mais é essencial aliar planejamento e tecnologia. “Em 2020, quando apresentamos o Sistema de Produção Antecipe, que antecipa a semeadura do milho em até 26 dias antes da colheita da soja, nos chamaram de loucos”, conta. “Hoje, os grandes produtores enxergam o potencial da tecnologia que diminui os riscos e garante um ganho de até 70% a mais de produtividade, com uma média de 1,5 a duas sacas por dia de antecipação da semeadura. Com isso torna-se mais fácil equacionar o tempo de colheita e venda.”
Quem também faz da tecnologia uma aliada é a paranaense Cocamar Cooperativa Agroindustrial. Com 1,7 milhão de toneladas de milho produzidas, em torno de 20 mil associados e 115 unidades operacionais, a cooperativa investiu cerca de R$ 2 milhões na implantação de uma rede própria de estações meteorológicas para coleta de dados em tempo real. “Trata-se de uma rede colaborativa, com 54 estações, 40 destas instaladas no Paraná”, revela o gerente técnico Rodrigo Sakurada. “As estações permitem prever chuvas e eventos climáticos adversos com antecedência. A previsibilidade ajuda o agricultor a planejar suas ações com mais assertividade, além de construir um histórico de alterações climáticas.”